O meia-atacante Thiago Belém é o maior credor do Remo. Somando os salários atrasados, a multa por quebra de contrato e os juros, o clube deve aproximadamente R$ 1,4 milhão ao ex-jogador. Thiago é pouco conhecido pelo torcedor azulino. Mal chegou ao time profissional e, por um conflito com dirigentes, acabou demitido. Em 2010, cinco anos depois, o episódio pode acabar mal para os azulinos. E o preço a ser pago pelo clube por dispensar o jogador é um o mais valioso patrimônio material do Remo: o Baenão.
A peleja entre Thiago Belém e o clube é uma sucessão de equívocos, que poderiam ter sido evitados, mas acabaram se arrastando de gestão em gestão e dando um prejuízo milionário ao Remo. Começou no início da administração de Raphael Levy. O presidente anterior, Ubirajara Imbiriba Salgado, havia promovido o prata da casa para a equipe profissional. Mas, quando Levy assumiu, em 2005, começaram os conflitos. A maior briga de todas ocorreu entre o ex-diretor de futebol, Bolívar Fernandez, e a família do jogador.
Durante as avaliações médicas, o médico Henrique Custódio detectou uma alteração no exame cardíaco do jogador, o que comprometeria sua carreira de atleta. Segundo Levy, os dirigentes foram levar a notícia à família de Thiago e ficou decidido que o exame seria repetido. Na segunda versão do exame, nada foi detectado. 'Fizeram novos exames e chegaram à conclusão que não tinha nada. Então houve a briga. O pai e o jogador brigaram com um dirigente', diz o ex-presidente, com indignação.
O advogado de Thiago acusa o clube de desrespeito ao jogador. 'O diretor falou: ‘Se você acha que tem direito a alguma coisa, então procure seus direitos', acusa o advogado de Thiago Belém, Carlos Kayath. E Levy confirma a informação. 'Houve uma briga entre o diretor e o pai do garoto. Então ficou uma situação difícil e decidimos dispensá-lo', conta o ex-presidente azulino, que reconhece a falha cometida durante sua gestão, mas a divide com o também ex-presidente Raimundo Ribeiro, que não contestou a dívida.
Antes de demitir Thiago Belém, o departamento jurídico do clube não foi consultado e o jogador acabou indo para a rua munido de todos os argumentos para entrar na justiça contra o Remo. Assim o fez. 'O Remo quebrou o contrato dele, e só o crédito desse jogador, em números de abril de 2008, era de R$ 1,3 milhões. E ele não aceita negociar, então a tendência é que, se o Remo não pagar, o Baenão vá a leilão para pagar o Thiago', revelou a juíza Maria de Nazaré Medeiros Rocha, titular da 7ª Vara do Trabalho de Belém.
Vida financeira prestes a ser 'resolvida'
Thiago Belém está prestes a ficar 'bem de vida' e não aceita mais tocar no assunto. Seguiu outra carreira, a de contabilista, e deixou todo o processo a cargo do advogado Carlos Kayath. Ano passado, durante uma audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), o Remo ofereceu pagar um terço da dívida ao ex-jogador, em suaves parcelas. Era o que o clube poderia pagar, mas Thiago Belém não aceitou e preferiu aguardar o leilão do estádio - caso não seja vendido - para que a dívida seja quitada.
'Não vou contar uma história que já contei há cinco anos. Vocês publicaram. É só procurar no arquivo', respondeu Thiago, pelo telefone, à reportagem.
Há uma sentença 'transitada em julgado', ou seja, para a qual não há mais recurso, determinando o pagamento da dívida ao jogador. Por ser o principal reclamante do clube na Justiça do Trabalho, Thiago Belém está entre os atletas acusados de querer enriquecer às custas do Remo. Mas, para Kayath, isso é dor de cotovelo. 'O clube não deveria ficar colocando a culpa no jogador. Até porque são os clubes que decidem o valor da multa rescisória', argumenta Kayath.
Raphael Levy, por sua vez, garante que o jogador vai receber mais do que o que tem direito. Para o ex-dirigente, a multa rescisória é para proteger apenas o clube, e não o funcionário. 'Se o processo fosse levado à Brasília, o Remo não teria que pagar isso tudo. Vê o Jóbson, que processou o Paysandu, ganhou aqui, mas recorreu a Brasília e levou um terço', conta Levy.
TRAJETÓRIA DE THIAGO BELÉM NO REMO
- Em 2004, antes de passar a presidência do clube para Raphael Levy, o cartola Ubirajara Salgado promoveu Thiago Belém do sub-20 para o profissional. O jogador ganhava um salário inicial baixo, de aproximadamente R$ 2 mil.
- Quando Levy assumiu, no final de 2004, o técnico Tita fez um 'vestibular'. Na versão do advogado de Thiago Belém, o jogador foi reprovado e demitido. 'O Tita trouxe 20 jogadores come-e-dorme com ele e dispensou os pratas da casa', contou Kayath.
- Segundo Levy, um exame cardíaco feito em Thiago Belém teria apontado um problema no coração do jogador. Thiago repetiu o exame, constatou-se o erro no diagnóstico, mas a família de Thiago e o antigo vice-presidente de futebol Bolívar Fernandez entraram em conflito.
- Em janeiro de 2005, Thiago Lima dos Santos, o Thiago Belém, abriu um processo trabalhista contra o Remo. Ele reclamou o não recebimento de salários atrasados, a multa por quebra de contrato e os juros sobre toda a dívida.
- O processo levou a sede social do clube a leilão pela primeira vez em 2007. Não houve arrematante. Outros bens foram a leilão, mas nenhum foi vendido até agora. A Justiça do Trabalho, porém, já anunciou que deve marcar o próximo leilão nas próximas semanas.
Fonte: Jornal Amazônia
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