A eliminação do Paysandu da Série C do Brasileiro - com a humilhante goleada por 6 a 2 para o Icasa - não surpreendeu ao técnico da Tuna Luso, Carlos Lucena, que assistiu pela televisão a alguns jogos do time bicolor. Sem papas na língua, como de costume, o treinador, de 53 anos, diz que a equipe alviazul que disputou a Terceirona não tinha qualidade técnica e jamais poderia sonhar com o retorno à Série B.
Com a língua afiada, Lucena lembra que, sob o comando do técnico Válter Lima, o Papão conseguiu ser ainda pior do que na época de Edson Gaúcho. 'Tanto que ele [Válter Lima] só ganhou uma partida e perdeu pontos jogando em Belém', afirma. Mas o técnico cruzmaltino não joga toda a responsabilidade do fiasco bicolor nas costas do técnico santareno. 'O problema é que o grupo que ele tinha em mãos era mesmo limitado. Com os ingredientes que tinha, o Valtinho não tinha mesmo como fazer um grande prato', avalia.
Deixando o adversário de lado, Lucena fala sobre a sua volta ao comando da Lusa, que ele levou ao vice-campeonato estadual de 2007, conquistando vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. O treinador garante que volta ao clube sem nenhuma mágoa e disposto a montar um time capaz de surpreender os adversários no Campeonato Paraense, se a Tuna se classificar para a fase de elite.
Para atingir o primeiro objetivo, a receita de Lucena é a mesma de outras temporadas. 'Vamos valorizar os jogadores locais, tanto os que fazem parte da base do clube como aqueles que vi jogar no interior do Estado', revela Lucena.
Tempo para garimpar jogadores no interior do Pará e em estados vizinhos não faltou a Lucena. Desde que deixou a Lusa, em 18 de abril de 2008, o treinador visitou 92 municípios paraenses e outras cidades de outros estados dirigindo o time de anões Gigantes do Norte, contratado para fazer as preliminares dos jogos do Flamengo de Master. 'Em todas as cidades por onde passei, procurei conhecer jogadores locais para trazê-los para Belém', conta Lucena, que deve iniciar os preparativos do time para a primeira fase do Parazão no início do próximo mês.
Na sua volta à Tuna, o que há de diferente em relação ao clube que você deixou em 2008?
Tem muita coisa diferente, a começar pela direção. O Fabiano Bastos, o novo presidente, mostra um interesse muito grande em levantar novamente o futebol do clube, que anda sumido do noticiário. Em termos de time, tudo é muito diferente. Não temos neste momento um só jogador profissional. Quer dizer, vamos ter que começar um trabalho do zero, montando o elenco para a disputa do campeonato [Paraense]. Mas isso não é problema. Do jeito que o nosso futebol está, posso dizer que a Tuna não deve nada aos adversários.
Como você pretende montar o elenco da Tuna, já que todo mundo sabe que o clube não dispõe de recursos financeiros?
Vamos adotar a mesma receita de outros anos. Os jogadores da base, que estão treinando como o Reginaldo Moraes, o China, vão ser avaliados e, com certeza, desse grupo serão tirado alguns atletas para o profissional. Os demais jogadores deverão vir do interior do Estado. Já tenho alguns nomes agendados... atletas que pude ver jogando quando o Gigantes do Norte estava fazendo amistosos no interior do Pará e em estados vizinhos, como o Maranhão. A ideia é não ter um elenco muito inchado. Quero trabalhar com, no máximo, 25 jogadores, neste primeiro momento.
O fato de a Tuna não ter, neste momento, um elenco formado não a deixa em desvantagem em relação aos adversários?
De forma alguma. A primeira fase do campeonato só vai começar em novembro. Portanto, temos dois meses para treinar e ajustar o time. É tempo mais do que suficiente para deixar o time arrumado. Fora isso, nenhum dos demais clubes que já estão garantidos na primeira fase estão treinando. Até mesmo quem está na etapa principal, como o Paysandu e o Águia, liberou seus jogadores. O Remo vem treinando, mas ninguém sabe, talvez nem o próprio treinador dele, quem vai ficar e quem vai sair do grupo. Posso dizer que está tudo nivelado.
Por falar em Paysandu, como você avalia a eliminação do time na Série C do Brasileiro?
Para mim, não foi nenhuma surpresa. Acompanhei alguns jogos do Paysandu pela televisão e vi que o grupo que eles tinham lá na Curuzu não mostrava qualidade técnica superior a ninguém. Já imaginava, desde o início da Série C, que o Paysandu não chegaria muito longe. Acabou sendo o fisco que foi. Faltava qualidade ao time e o próprio torcedor do Paysandu, analisando a coisa sem paixão, sabia disso.
Por que a Tuna Luso não consegue mais revelar tantos talentos, como ocorria na época em que você estava à frente da base do clube?
Fiquei de 1990 a 96 no comando das divisões de base, tempo relativamente suficiente para aperfeiçoar a garotada. Mesmo quando estava no profissional, jamais deixei de dar atenção às divisões inferiores, acompanhando os jogados e treinos da garotada. Tanto que aqui e ali sempre conseguia pinçar um bom jogador para o grupo principal do clube. A Tuna não deu continuidade ao trabalho de base, trocando de treinador seguidamente. As dificuldades financeiras também atrapalharam. Mas, mesmo na minha época, já existia falta de dinheiro e, mesmo assim, conseguimos revelar alguns jogadores.
Fonte: Jornal Amazônia
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