Em Belém, decepção geral
'Morreu. Agora não tem vez.' Foi o que desabafou um torcedor do Clube do Remo quando o atacante Garrinchinha marcou o segundo gol do São Raimundo, na vitória de ontem do time santareno por 2 a 1 e que acarretou na desclassificação azulina do Campeonato Paraense e, de tabela, tirou as chances de ir para a Série D do Campeonato Brasileiro. Os semblantes eram todos pesados. Um ou outro gritava palavras de ordem. Quando o Leão diminuiu o placar por meio do volante Beto, alguns gritavam que dava tempo. E dava. Eram 23 minutos do segundo tempo ainda. Mas a maioria dos presentes sabia que se dependesse das forças da equipe essa esperança de redenção no final era mínima.
Tradicional reduto de torcedores do Remo, o Bar do Seu Menino, localizado na Avenida Conselheiro Furtado, estava cheio. A charanga presente era o único sinal de animação, porém nem o hino azulino conseguia levantar a galera. O Remo não ajudava, jogava mal, ao passo que a Pantera sobrava em campo. A chuva fina e fina e constante deixava o clima bem mais pesado para os que estavam de azul-marinho.
'Tá pegando. Não tem condições assim. Só para o ano mesmo. Nunca imaginei ver o Remo numa situação dessas. Para piorar ainda tenho que ver esse time sem nenhuma raça', lamentava Enock César. 'Eu sabia que estava difícil, mas tinha esperança numa vitória. Mas, com esse time aí não dá. Continuo sendo Remo até se fizerem a Série Y, mas a torcida não merece essa humilhação', completou o torcedor Paulo Pantoja.
O proprietário do bar, Márcio 'Seu Menino' Mira, também remista, já lamentava o dia seguinte. 'Os torcedores vão embora, eu tenho que ficar. Sempre encarei numa boa as encarnações, em bar é assim, mas a partir de amanhã (hoje) vai ser uma encarnação sem tamanho.'
No Dom Bar, na Avenida Almirante Wandenkolk, a maioria silenciosa remista contrastava com alguns santarenos que comemoravam a conquista do returno. 'Foi uma encarnação só com o pessoal do Remo. Apareceram uns bicolores que engrossaram nosso coro. Felizmente foi tudo na paz, com todos se respeitando', disse o alvinegro Jesus Bastos, que admitiu que quando do apito inicial estava nervoso com a partida. 'O jogo foi até tranquilo, mas quando ele começou eu estava até um pouco apreensivo.'
Já a sede social do Remo era quase só alegria. Não havia nenhum dirigente ou torcedor no local, que tinha um salão de festa pra lá de movimentado com casais dançando clássicos boleros em um baile da saudade. Em Santarém, ainda se encontrava para vender camisetas com os dizeres 'O Leão está vivo', mas a frase em questão referia-se ao Leão mocorongo, o São Francisco, cujos dirigentes querem tirar da inatividade. O de Belém vive, é claro, mas ficará em estado de hibernação até janeiro do ano que vem.
Zagueiro chora e joga culpa nas administrações passadas - Após o apito final do árbitro Leonardo Gaciba, o zagueiro Rogério Corrêa, do Remo, chorou copiosamente. De acordo com ele, que cometeu o pênalti que foi convertido por Michell, no primeiro tempo, os reais culpados pelo fracasso histórico do Remo não entraram em campo na tarde de ontem. 'Sei que a torcida do Remo está tão triste e envergonhado como nós, mas só espero que ela e nem ninguém venham crucificar esses garotos que jogaram hoje. Eles fizeram o que puderam em campo, mas não é deles a culpa desta situação', frisou o defensor, que criticou as diretorias anteriores do clube.
'Esse desastre começou a ser construído nas administrações passadas. As pessoas que dirigiram o Remo antes da atual assumir precisam ter consciência do que elas fizeram com o clube. Elas precisam aprender que tem que se ter responsabilidade quando se administra um clube de massa como esse', desabafou Rogério Corrêa.
O jogador também soube apontar muito bem os erros da equipe na decisão do segundo turno. 'Infelizmente, em 17 minutos de jogo, na primeira partida da decisão, perdemos o título. A cada momento das nossas vidas, seja ele bom ou ruim, é preciso que se tire alguma lição. Nós não podíamos errar tanto numa decisão como erramos', avaliou o capitão azulino, que terá o contrato encerrado no dia 15 de maio. 'Quero voltar ao Remo no ano que vem para estar aqui quando o clube for campeão paraense. Mas sei que por causa da situação financeira do clube vai haver dificuldade na negociação.'
Rogério Corrêa também lembrou dos heróicos torcedores do Remo que acreditaram na equipe até o final. 'Essas pessoas têm todo o meu respeito, pois são os verdadeiros torcedores do Remo', referindo-se aos pouco mais de 200 azulinos que estiveram ontem no Colosso do Tapajós.
Paredão - Outro que também estava triste era o goleiro Adriano. Antes do jogo, o goleirão azulino tentou motivar seus companheiros chamando todos para uma oração no centro do gramados. No final da partida, apesar de ter falhado no lance do segundo gol mocorongo, ele foi aplaudido na saída do gramado por um pequeno grupo de torcedores remistas. 'A minha maior tristeza é não poder dar a essa torcida que tanto me idolatra uma grande alegria. Lutamos, mas Deus não quis que o título fosse nosso', argumentou, lembrando detalhes da partida. 'No segundo tempo, tivemos a chance de empatar o jogo naquela cabeçada que o Marcelo Maciel perdeu, mas acabamos sofrendo o segundo gol. Perdemos por causa do péssimo futebol mostrado no primeiro jogo', declarou.
Fonte: Jornal Amazônia
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